Destaque

IFPB é cobrado por respostas sobre denúncias de assédio e procedimentos disciplinares durante gestão de Mary Roberta

A gestão do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), comandada pela reitora Mary Roberta Meira Marinho, é alvo de questionamentos sobre a condução de procedimentos administrativos relacionados a denúncias envolvendo servidores da instituição. Documentos consultados pela reportagem mostram processos disciplinares em tramitação e decisões administrativas que levantam dúvidas sobre medidas adotadas durante as apurações.

Um dos casos está relacionado ao processo nº 23799.000459.2025-36, aberto em 23 de maio de 2025 e em tramitação na Corregedoria do IFPB. O procedimento, classificado como restrito, reunia 196 documentos nas últimas movimentações disponíveis para consulta, em agosto de 2026.

Suposto assédio sexual

Entre os interessados no procedimento está Iva Barbosa Luciano. Segundo relatos obtidos pela reportagem junto a integrantes da comunidade acadêmica, o processo apura uma denúncia de suposto assédio sexual e Iva seria o servidor investigado.

A documentação demonstra que o procedimento passou por diferentes etapas ao longo de 2025 e 2026. Entre os registros estão termos, atas, notificações, provas, portarias, memoriais, relatório e parecer.

Em 19 de julho de 2026, foi registrado um relatório. Em 3 de agosto, houve o registro de um memorial e, em 11 de agosto, de um parecer. Apesar dessas movimentações, o procedimento permanecia classificado como “em trâmite” em 20 de agosto de 2026. A situação ganha outro elemento diante de informações sobre a participação do servidor em atividades relacionadas ao Campus Alagoa Grande.

Uma publicação de março de 2025 registra a participação de Iva em reunião conduzida pela reitora Mary Roberta para tratar da implantação da unidade. O registro é anterior à abertura do processo. Fontes ouvidas, entretanto, afirmam que teria ocorrido posteriormente uma designação do servidor para atividades relacionadas ao campus, já durante a tramitação do procedimento.

O ato formal dessa eventual designação, sua data e o alcance das atribuições ainda precisam ser esclarecidos pelo IFPB. Entre os pontos questionados à instituição é se havia medidas administrativas específicas durante a investigação, se a natureza da denúncia foi considerada na definição das atribuições do servidor e quais protocolos de proteção foram adotados, caso tenham sido necessários.

Transferência de professor

As dúvidas sobre a condução de procedimentos disciplinares também aparecem em outro caso envolvendo o professor Boaz Antônio de Vasconcelos Lopes. Uma certidão emitida pelo IFPB em 11 de julho de 2024 registra que o professor respondia, na condição de denunciado, a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). O documento também indicava que, naquela data, não havia penalidade registrada em sua ficha funcional.

Pouco mais de um mês depois, em 16 de agosto de 2024, uma portaria da área de Gestão de Pessoas autorizou, a pedido, a remoção do professor do Campus Princesa Isabel para o Campus Monteiro.

A transferência não significou o encerramento do PAD. Antes da remoção, o próprio professor assinou declaração na qual se comprometia a retornar ao Campus Princesa Isabel quando fosse convocado para atos relacionados ao processo disciplinar. A documentação indica que a apuração continuaria exigindo diligências mesmo após a mudança de campus.

Novo relato

Em 13 de março de 2025, o pai de uma estudante procurou o IFPB para relatar um novo episódio envolvendo o professor já transferido para Monteiro.

Segundo o registro encaminhado à instituição, a estudante teria utilizado o computador pessoal do docente e encontrado páginas de conteúdo pornográfico abertas no navegador. O relato também menciona comentários considerados impróprios. As informações foram formalizadas em processo eletrônico em 24 de março de 2025.

Em 15 de abril, a Corregedoria determinou que o novo material fosse reunido ao PAD anterior, considerando a existência do procedimento já em andamento. O despacho também informou que a instrução do processo havia sido reaberta.

Os documentos analisados pela reportagem não permitem concluir qual foi o resultado definitivo da apuração nem esclarecem todas as circunstâncias relacionadas à decisão de transferência e à posterior reabertura da instrução.

Comunidade acadêmica cobra transparência

Os dois episódios possuem circunstâncias distintas e, por si só, não representam comprovação de responsabilidade ou culpa dos servidores envolvidos. As denúncias e os procedimentos disciplinares precisam seguir o devido processo administrativo, com direito à defesa e à manifestação dos investigados.

Porém, os casos colocam em discussão a atuação administrativa do IFPB diante de denúncias e procedimentos disciplinares, especialmente quanto às medidas adotadas enquanto as apurações permanecem em andamento.

Integrantes da comunidade acadêmica relatam preocupação com o tratamento dado às denúncias, além de receio de exposição entre pessoas que consideram procurar os canais institucionais para apresentar queixas.

O IFPB ainda precisa esclarecer quais protocolos existem para proteção de possíveis vítimas e testemunhas, como são avaliadas eventuais mudanças de lotação ou atribuições de servidores investigados e quais mecanismos de acompanhamento são utilizados enquanto processos disciplinares permanecem em tramitação.

Disputa pela Reitoria

As questões chegam em um momento de disputa pela sucessão da atual reitora.O atual pró-reitor de Ensino, Neilor César dos Santos, concorre à Reitoria do IFPB como candidato à sucessão de Mary Roberta. Por integrar a atual administração, sua candidatura também coloca em debate a continuidade ou mudança das práticas administrativas adotadas pela instituição.

A campanha ocorre em meio às cobranças por respostas sobre procedimentos disciplinares e sobre a forma como denúncias são recebidas e encaminhadas dentro do Instituto. Neilor tem o desafio de apresentar à comunidade acadêmica suas propostas para a condução administrativa do IFPB, inclusive em relação à transparência, aos mecanismos de denúncia e às políticas institucionais de prevenção e enfrentamento de situações de assédio.

Companheira de candidato disputa direção em JP

Outro aspecto da eleição envolve a candidatura de Dayse Ayres Mendes do Nascimento, psicóloga organizacional do IFPB e companheira de Neilor. Ela disputa a Direção-Geral do Campus João Pessoa, maior unidade do Instituto, contra Diana Moreno Nobre de Souza.

A existência do vínculo familiar não caracteriza irregularidade nas candidaturas. A questão que se coloca é de natureza administrativa e institucional: caso ambos sejam eleitos, quais mecanismos serão adotados para garantir transparência e evitar conflitos de interesse em decisões que envolvam as duas estruturas?

Reitoria e direção do Campus João Pessoa participam de decisões relacionadas a orçamento, pessoal, distribuição de funções e processos administrativos. Por isso, a definição prévia de regras de impedimento, suspeição e transparência torna-se relevante para situações em que decisões possam envolver interesses de pessoas próximas ou integrantes das respectivas administrações.

Blog do Araújo Neto